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Escrito Com Olhos Teresa de Paiva

Escrito Com Olhos

Teresa de Paiva

Published
ISBN :
Paperback
46 pages
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 About the Book 

Li, um dia, um conto a uma criança em que a personagem principal era um velho e amarelecido livro de contas - contas de contar, contas de mercearia, contas de drogaria - onde o pobre e bom-serás comerciante anotava as perduráveis e resistentesMoreLi, um dia, um conto a uma criança em que a personagem principal era um velho e amarelecido livro de contas - contas de contar, contas de mercearia, contas de drogaria - onde o pobre e bom-serás comerciante anotava as perduráveis e resistentes dívidas. Mas em cada conta estava um conto: x por tantos sacos de cimento, mais umas tábuas para fazer uma arrecadação- y por uma certa quantidade de artigos de mercearia, etc., no fundo, pistas de momentos de vidas. Era, pois, um prosaico livro de deve e haver, mas era também um livro de vidas, de parcelas de vidas, denunciadas pelas contas por saldar.Lembrei-me desse livro para crianças ao ler este Escrito com olhos. Diferentes nos autores e nos destinatários, nos formatos e conteúdos, comungam, todavia, uma mesma linha, a linha de quem em poucas palavras conta parcelas de vidas. Poemas ou talvez não, muitos dos textos desta obra (re)constroem uma(s) pessoa(s), como se cada pequeno enredo estivesse a ser tecido, dito pela personagem, que nós, leitores, mais atentos, pressentimos ser (serem) rostos mil da mesma face, da mesma boca, do mesmo trejeito. De caderninho na mão, a poetisa recolhe pormenores do mundo, à laia de investigador criminal de mãos protegidas por luvas, um foco de luz e uma pinça para capturar e plasmar num esterilizado saco plástico as minúsculas pegadas deixadas pelo outro interveniente do sucedido.Mas além da presença dos outros, há também a voz do sujeito poético, que vai entrelaçando os pedaços dos outros com os seus, levando a confusão ao leitor, que se sente incapaz de separar com nitidez onde acaba o outro e começa o eu. «Não adianta fugir de nós mesmos, pois levamo-nos sempre connosco», segredou(-me) Larissa. Mas não só a nós nos levamos, completo eu, mas também a muitos outros, aqueles cujas rotas cruzámos, de perto ou à distância, tanto faz, pois nenhum ser humano se completa a si mesmo sem que se enlace e desenlace com larissa(s), igor(es), iara(s), omar(es), Laura(s). Como diz outra personagem deste Escrito com Olhos, vamos (…) passando pelo tempo e descobrindo a Verdade dos outros. E a sua. A nossa.